Oi.Meu nome é Priscyla Poll.Sou uma garota que gosta de viajar!

Não, não namore uma garota que viaja.

Concordo: meninas que viajam não são para namorar. Não são futuro. Não te darão sossego, não te darão segurança alguma, não ligarão para você, não vão querer mudar os planos delas para viver o seu, digo, para viverem juntos os sonhos ambiciosos que qualquer um gostaria de viver.

A menina que viaja não planeja muito. Não está preocupada com a bolha imobiliária, com as rugas, com a ausência de batom na bolsa. A pergunta mais feita a ela “e o seu futuro” só faz vir a sua cabeça as palavras “terei muito orgulho do meu agora”, mas vai te responder com um “sei lá, depois eu vejo. Uma hora vou ver.” E depois de viajar tanto, terá adquirido tantas experiências que estará a frente, mas muito a frente de alguns mestrados e pós graduados em algumas áreas. E falará alguns outros idiomas. É, alguns no plural.

No momento, trabalho é uma palavra que tem um significado bem diferente pra ela do seu. Ela trabalha não para comprar um carro e ter independência. Ela trabalha para comprar um avião, uma passagem de avião, e ter liberdade. Liberdade para chegar e ir embora quando convir, mudar tudo, ou o oposto, manter tudo que quiser quando se sentir feliz de verdade ali. Se der errado, sem dramas ela vai embora. Dirá para pessoas incrédulas, achando que ela se encontra num estado infantil de idealização de um mundo tao bom, que não é possível para as pessoas convencionais: “se der errado, eu recomeço. já fiz isso, dá certo.” Como ficar ao lado de alguém que se recusa a entrar numa compra de um apartamento na planta contigo por não querer se arriscar assim e de repente, ela diz que viajará no próximo mês por alguns meses pra índia sozinha? SOZINHA!

Entender a lógica dela é bem complicado. É intensa, linda e apaixonada que parece sair de um filme, mas um coração gelado com o que você pensa dela, nem parece fazer questão alguma da ter você só para ela. Não fuça seu celular, não faz bico porque você deu carona para a menina que trabalha contigo, nao entende porque voce faz careta quando ela diz que irá apresentar a cidade para o amigo gringo dela. Mas aí ela faz aquele elogio de coisa que só a sua mãe fala do tipo “ah, mas que lindo que você sorri com o olho” e vai dizer que você fica uma coisa de louco com seu all-star de estimação mais surrado que sua ex, elegante e super bem encaminhada para uma carreira de sucesso, tinha um ataque a cada vez que você tinha a intenção de levá-la para jantar usando eles. Que jogo baixo!

Você trabalha a semana inteira pesadamente, por anos junta dinheiro e vai comprando aos poucos móveis confortáveis e lindos, e a ingrata vai dizer “tá faltando uma rede aqui…”. Quanto desdém com seu sofá ortopédico feito sob medida! Vai querer ficar na varanda, e ignorar sua televisão de alta definição, vai querer ir pra serra no final de semana, e nem é pra ficar num hotel desses feito com o ultimo conceito da arquitetura, é pra se enfiar no meio do mato até alcançar um ponto alto e dizer o quão fresco é o vento lá. E seu ar-condicionado? E sua wifi que poderia te mostrar aquela mesma vista pelo computador, sem precisar escalar aqueles pedregulhos todos? E pior que quando voltarem, no seu “camaro amarelo” totalmente empoeirado por ela ter te pego de surpresa e mandado você virar numa estradinha de chão horrível, ela vai comentar que a noite mais linda dela foi dormindo numa pedra ao lado de uma cachoeira em Sumatra. Bem em cima da sua king size.

Se voce levá-la a uma festa, verá entre os saltos, cintos de metal e cabelos escovados com luzes, uma rasteirinha com uma blusa dizendo “I Tokyo” e um cabelão um pouco arrepiado até quase o meio das costas. Verá as meninas perguntando o nome daquele e do outro lugar, e a rodinha de pessoas querendo “conselhos para a viagem das próximas férias”. só crescendo. Se você nao for bom de controlar ciumes e coisas assim… alias, se voce for ciumento, aí meu amigo, fuja como o diabo da cruz de uma garota que viaja. Ela atrai muita gente sem ser por causa do emprego bom, da grana, da roupa bacana, do cabelo lindo e maquiagem impecável e essas coisas que a chuva leva embora.

Ela assiste tv. Para por horas em programas de culinária exótica, expedições pelo mundo e documentários de Surf em ilhas tropicais. Desliga assim que começa “resorts 7 estrelas”. Não entende e nem se interessa por carros, a menos que seja um motorhome ou uma kombi adaptada. Vai falar de muitas coisas com pessoas que nao estao na tv, ou no jornal, ou nos bares, ou nas festas, ou nas rádios… vai falar de muita coisa fora disso, uma quantidade que você jamais saberia que poderia existir. Vai te deixar em silêncio, olhando para o horizonte, caso encontre alguém falando disso também. Ficará em silêncio quando você comentar com seus amigos aos risos da garota desleixada que nao vai na academia, e arruma um modo muito suspeito de viajar para os lugares “de carona por pessoas, com certeza somente homens, que devem ter muito ‘prazer’ em ajudar”. Vai levantar os olhos ao ver você discursando sobre os conflitos sociais da turquia e dirá “você já esteve lá”? Tente uma estratégia diferente de “vi na carta capital”.

Ela anda demais, se move demais, é avoada demais. Pensa que não vai envelhecer, e quer viver tudo agora. Pensa que a vida é assim. Não consegue ver férias como férias, como a vida de verdade. Insiste em dizer que é estilo de vida, e que pode viver esse sonho para sempre. As pessoas precisam comprar coisas, precisam ter uma carreira, precisam viver a realidade, e a realidade não é linda como as montanhas com neve, nem feliz como festival de música. Ela diz absurdos como os de que alguém pode realmente ser excepcional em sua área sem anos de estudos sérios em universidades. Vai enlouquecer seus pais, tementes a Deus, vivendo uma confortável aposentadoria (ou quase lá) com papos de hinduísmo, vida nômade e a felicidade no meio do mar.

Talvez você nem vá tão longe com ela, talvez nem chegue perto. É difícil colocar em palavras, mas talvez esse seja o tal do “feminismo exagerado”. Ela diz que não precisa de família, que está muito bem solteira, que não sonha com um vestido branco, uma casa bonita e um marido ao seu lado, a ajudando para tudo que ela não seja capaz de fazer, como consertar o encanamento, tomas todas as decisões da vida dela por ela mesmo. Mesmo as grandes amigas de infância e a família não entendendo porque ela afasta garotos que seriam tao bons maridos, pessoas para o resto de suas vidas, quando sua juventude se for e o interesse dela pelo mundo desaparecer junto. Ela precisa de alguém, ela precisa acordar, e ver que está vivendo essa fase adolescente que todos nós já vivemos e superamos. Ela precisa ser como todos para ser feliz, nao desperdice seu tempo tentando trazê-la para a normalidade. Ela vai acordar um dia, esperamos que antes da 3a idade, e dizer “eu nao deveria ter viajado tanto. Deveria ter trabalhado mais e assim todos os meus descendentes poderão usufruir do meu trabalho e sacrifício de uma vida inteira.”

E não vai acreditar quando ela te trocar pelo “alternativozinho” que vai buscar ela de bicicleta.

Dá saudade dela chegando na sua casa de mochila e vestidinho de flor, dá vontade de dar uma de louco de vez em quando no meio do transito engarrafado de todo o dia, e “ouvir a minha voz interna”. Mas a comida tem que vir de algum lugar, e não estudei a vida toda para virar garçom em Jericoacoara. A profissão não me faz feliz, mas quem disse trabalho é diversão? É pra ganhar dinheiro, me alimentar, me divertir na medida do possível, e voltar para fazer mais. Ela arrisca demais, tem sorte demais, por tanto tempo as coisas dando certo como mágica… mas um dia essa sorte acaba, e o sonho acabará. Tenho fé!

É fácil gostar da leveza de uma pessoa de uma vida de sonhos. É difícil acreditar nessa vida. Não dá pra acreditar nessa coisa de sorte, cosmos, energia, sei lá. Não dá pra deitar na cama e pensar que ela pode estar em alguma parte do globo, andando sozinha, uma mulher tão bonita… não dá pra esquecer uma menina lindinha, que riu do meu papo de “tá muito calor, eu queria, sem ofensa, te convidar para um lugar mais fresco” me deu um beijo, e me arrastou pra beira da praia, e me convidou para acampar na ilha grande no próximo final de semana. É responsabilidade demais levar nas costas tantas comparações que ela pode fazer de você com os demais caras do mundo. Segurança desse tipo para as mulheres não as tornam boas moças de família, requerem uma constante reconquista, pois essas sabem muitos caminhos para a saída, caso nao estejam satisfeitas.

“um horizonte cambaleante” é o lema dela. O que para muitos é um desespero, para ela é a graça da vida. Acordar e ir a luta, pegar a estrada, pegar a trilha, ter uma atração cafona pelo céu, andar, voar, navegar quilômetros para reencontrar um lugar que a fez muito feliz, para reencontrar alguém que a fez muito feliz. Vai embora, e você a verá por fotos na internet com paisagens de cartões postais, sorrindo, provavelmente não lembrando de você. Aí você recebe uma mensagem após comentar na foto “que bom que viu essa foto, lembrei de você tanto quando estava lá”. Talvez essa pessoa tenha coração, mas não sofre por não me ter mais ao lado dela, logo, não pode ser amor de verdade.

Garota que viaja, torcemos para que seja feliz, porém não dá. Não estamos prontos para amar alguém que ao invés de criar raízes, cria asas.

Priscyla Poll

Colunista Social, Escritora por amor, Historiadora interrompida, Fotógrafa Intermediária, Jornalista desde sempre, Autêntica, Maluca, Super Sincera. Decepcionando pessoas e Cometendo Erros, te desiludindo nas horas vagas.

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