Limites Fotográficos entre o Abismo e a Carne de Richard Labastier.

Limites Fotográficos entre o Abismo e a Carne de Richard Labastier.

Desde a oportunidade de ter esse espaço todo especial para escrever sobre fotografia (e até fugindo um pouco dela) me deparei com um conflito mensal sobre o que escrever, porque sempre pairava a sensação de que deveria ser um texto esclarecedor por inteiro, que falasse do “sentimento fotografia” e não somente passasse uma informação sobre técnicas, teorias e execuções fotográficas alheias. Não parece tão complexa a limitação dessa escolha olhando de fora, porém peno nesse encontro que nada mais é que a grande essência da vida: novas e apavorantes descobertas do medo primitivo, cada vez mais dominado (e não dominante) em unidade com o Ser.
O fotógrafo pernambucano Ricardo Labastier foi pesquisado (muitos deveriam ser, outros não) pela antropóloga Georgia Quintas e “lançado” através do livro “Abismo da Carne”. O livro tem como proposta difundir a discussão processual da poética autoral e os desdobramentos de discurso crítico, expondo o processo de análise dos arquivos levando em consideração a visão do fotógrafo e da curadoria. A publicação traz imagens dos ensaios Lumaria, Aos olhos do Pai e Oxalabá, que foram captadas por Labastier entre os anos de 2002 e 2007, nos estados de Pernambuco, Bahia, Goiás, Alagoas e no Distrito Federal. Antes do livro, a pesquisa resultou na exposição “Abismo da carne”, mostrada em São Paulo, na DOC Galeria, em Montevidéu/UY e Tiradentes/MG.

Acredito que através das palavras deste livro (e não tanto as imagens) o “sentimento fotografia” pôde ser exposto, mesmo que de forma intrínseca já que insisto na palavra subjetividade e por falar tanto do que realmente acredito dentro deste universo, selecionei alguns trechos do livro que são palavras que devidamente separam fotógrafos de apenas capturadores de imagens.

Ver torna-se experiência.

“Há muito, a iminência do gesto contorcia-se, escrutinava o assombro de sair da realidade. Rompeu-se o silêncio, e com ele as cicatrizes foram alargadas por escavar demais. Pensava que acordar era apenas enxergar o que estivesse ao seu alcance. Mas se para alcançar é preciso enxergar pela porosidade dos contornos e caprichos do que vemos, ou pensamos ver, como atravessar um mundo além do quarto escuro, que sempre acomoda a infância, a família, cheiros vividos, sons entremeados, santos devotados, o rigor dos sinos?”

No escuro, adensamos imagens dissolutas. Damos formas ao que nunca as possuiu, esgarçamos possibilidades à mercê de encontrarmos um novo território; certa espacialidade que não determina certezas, mas que assegura imagens, rascunhos de sensações. Através dela, da escuridão, vemos mais pelo que perdemos em sua latência insinuada do que pelo que apreendemos em seus lapsos de luz. Nem sempre a definição na imagem vista revela o discurso mais claro. Tatear, balouçar pela forma.
Deslocar-se pelo escuro permite trançar certo erotismo com volumes marcados pela cor. O ato íntimo de entregar-se às imagens é suficientemente profundo, assim como vermos a escuridão. O peso da imagem transitiva – aquela que nos faz passar por uma estrada sem fim – também sopra o ar denso da procura, do olhar de quem viu mais alguma coisa nas pessoas, em vidas desfiadas. À penumbra dessas imagens, sentimos o lembrar de coisas imaginadas, em cenas que não pertencem ao mundo tátil. Ao nascer da porosidade de um sentir no limbo da noite: ver torna-se experiência.

Há limites para a fotografia?
Não há limites, tudo é expansão, conhecimento, liberdade. Mas essa abundância de limites não seria o próprio limite, onde as imagens se tornam mais uma? Para mim, o que realmente não tem limite é a inquietação humana, é a sabedoria da finitude que nos transforma, nos silencia num plano maior que a música, a pintura, a fotografia e a dança, por exemplo. Então nos utilizamos desses canais para tornar, talvez, um pouco mais perenes essas sensações. Mas, sim, deve haver uma enorme paixão dentro do nosso peito, lá de longe, bem nossa, bem egoísta e linda para crermos nessas possibilidades.

Priscyla Poll

Colunista Social, Escritora por amor, Historiadora interrompida, Fotógrafa Intermediária, Jornalista desde sempre, Autêntica, Maluca, Super Sincera. Decepcionando pessoas e Cometendo Erros, te desiludindo nas horas vagas.

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